HISTÓRIA

Na sua primeira apresentação no carnaval de 1975, o Ilê Aiyê apresentou sua identidade na música "Que Bloco é Esse", de Paulinho Camafeu:  

"Que Bloco é esse"  (bis)

Eu quero saber 

É o mundo negro  

Que viemos cantar para você

 

Branco se você soubesse

O valor que o negro tem

Tu tomava banho de piche

Pra ficar negro também

Não lhe ensino minha malandragem

Nem tão pouco minha filosofia

Quem dá luz a cego 

É bengala branca de Santa Luzia  

            

Que bloco é esse  ( bis )

Eu quero saber 

É o mundo negro  

Que viemos cantar para você

 

Somos crioulos doidos  (refrão)

Somos bem legal

Temos cabelo duro 

Somos Black Power"   

 

Click aqui e ouça um trecho da música: "Que Bloco É Esse", na voz de Gilberto Gil. 

 

 

(Autor: Jônatas Conceição - trechos de artigos do livro "Escravidão e Invenção da Liberdade", editora Brasiliense, 1988).     

A movimentação dos negros baianos em épocas mais recentes e com características e reivindicações novas e atualizadas, tem como seu ponto de partida a criação, em 1974, do Bloco afro Ilê Aiyê, no Curuzu, no mais populoso bairro de Salvador: a Liberdade.  

Existiram dificuldades no início. Os  negros não assumiam sua condição racial e havia o medo de serem tachados de comunistas. Esse medo era generalizado no meio da liderança negra da época. O Brasil, em 1974, vivia num clima de terror extremado, e qualquer manifestação cultural ou política que fosse diferente e viesse de encontro a padrões estabelecidos da ordem vigente, era cuidadosamente vigiada e duramente reprimida.

Portanto, devemos entender o medo dos primeiros militantes como manifestações da falta de garantia  individual/social reinante na época e produzida por órgãos de segurança que acusavam ou denominavam qualquer atitude política de oposição como sendo "coisa de comunista". A partir desta perspectiva podemos inferir que os negros que se reuniam para brincar/fazer o carnaval no Ilê Aiyê tinham consciência de que também estavam fazendo política, além de cultura.

Em depoimento ao autor deste artigo, em 1988, Vovô fez referências às dificuldades iniciais do bloco, "o cerco de alguns setores brancos da sociedade". Não faltaram reprovações e ameaças - tanto policiais como da parte da imprensa mais reacionária. A nota do jornal A Tarde, de 12 de fevereiro de 1975, tinha como manchete:

"Bloco Racista, Nota Destoante".

Conduzindo cartazes onde se liam inscrições tais como: "Mundo Negro", "Black Power", "Negro para Você", etc., o Bloco Ilê Aiyê, apelidado de "Bloco do Racismo", proporcionou um feio espetáculo neste carnaval. Além da  imprópria exploração do tema e da imitação norte-americana, revelando uma enorme falta de imaginação, uma vez que em nosso país existe uma infinidade de motivos a serem explorados, os integrantes do "Ilê Aiyê" - todos de cor - chegaram até a gozação dos brancos e das demais pessoas que os observavam do palanque oficial. Pela própria proibição existente no país contra o racismo é de esperar que os integrantes do "Ilê" voltem de outra maneira no próximo ano, e usem em outra forma a natural liberação do instinto característica do Carnaval.

Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica  a que estão ligados. É muito difícil que aconteça  diferentemente com estes mocinhos do Ilê Aiye. 

Se a imprensa reagiu assim à criação do primeiro bloco-afro baiano - com propostas de cunho nitidamente político-cultural, tendo como objetivo a afirmação do negro e sua cultura - como se comportaram outros setores brancos, dominantes ?



Para Antonio Carlos dos Santos Vovô, presidente do Ilê Aiyê, quando da criação da entidade não havia ainda, por parte dos fundadores, uma consciência da força que o bloco representaria para a população negra.


Segundo Vovô, certos setores brancos, assim que perceberam que não podiam "destruir" a entidade, mudaram de tática: começaram a se integrar, a querer colaborar com o bloco.

O Ilê Aiyê surgiria como expressão dos anseios de grupos de negros em busca de auto-afirmação cultural. 

Por auto-afirmação cultural entenda-se: os negros têm uma história baseada em sua herança africana e querem fazer com que esta história seja resgatada, expandida e assumida, ao menos pela Bahia, o estado de maior contingente negro do país. Este fato, por si só, é essencialmente político, e por que não dizer revolucionário, na medida em que o ano em que se desenrolava estes fatos era 1974, o ano 10º da ditadura militar, e também porque essa proclamação de auto-afirmação cultural negra se dava no paraíso da "democracia racial" brasileira dos setores e intelectuais atrasados, beneficiários e coniventes com o racismo do país. A consolidação da proposta político-cultural do Ilê Aiyê se daria, segundo Vovô, no terceiro ano da entidade. No carnaval de 1977, o número de associados foi de, aproximadamente, entre 800 e 1000, o que era um sinal inequívoco de consolidação e de que a população negra baiana tinha dito SIM ao Ilê. 

 

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