ESCOLA MÃE HILDA

 

 

DADOS DA ESCOLA

Entidade Mantenedora - Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê

Fundação -  Março/1988

Escola de Alfabetização – alfa à 4ª Série

Clientela – 174 alunos de 6 a 15 anos

Professores – 08

Secretaria – 01

Coordenadora Pedagógica – 01

Diretora – 01

Formação – Magistério

Nº de Salas – 04  

Nº de classes – 08 (04 no matutino e 04 no vespertino)

 

    

HISTÓRICO DA ESCOLA MÃE HILDA

O Ilê Axé Jitolu é um Terreiro de Candomblé de nação Gêge-nagô, comandada por Mãe Hilda dos Santos, que reside no Curuzu - Liberdade, desde o ano de 1938. Mãe Hilda acredita e afirma que um Terreiro de Candomblé é também uma Escola, onde os iniciados  aprendem a conviver na irmandade e solidariedade, aprendendo e vivenciando uma religião que não tem o registro escrito e sim a oralidade e o aprender fazendo. O Terreiro não faz pregações itinerantes ou sermões em templos, mas não pode fechar a porta para àqueles que nela chegam. Foi nesse espaço, ou melhor, neste templo sagrado que nasceu o Ilê Aiyê  que, apesar de profano (por ser um bloco de Carnaval) herdou os fundamentos e princípios da religião do candomblé. Essa herança fez do Ilê uma entidade que tem a compreensão da dimensão da Religião do Candomblé e absorveu dela valores e princípios básicos à convivência social, bem como o respeito aos mais velhos e o aproveitamento da simbologia para as suas canções, toques, adereços e figurinos sem ferir os fundamentos religiosos. Ao longo dos seus 28 anos o Ilê Aiyê tem difundido e preservado a cultura africana e afro-baiana, ao tempo em que tem defendido o respeito às religiões.

E é sobre esse lastro que surge a Escola Mãe Hilda.

Tudo começou (1988/1989) com pouco mais de cinco crianças que tinham dificuldades de aprendizagem e a mães buscaram a filha de Mãe Hilda para dar uma “banca”. Depois surgiram outras crianças evadidas da rede pública com históricos de bi-repetência e indisciplina, que não queriam mais ficar na Escola.  E a notícia correu rápida que as “filhas de Mãe Hilda estavam ensinando e as crianças estavam aprendendo e tinham até mudado o comportamento.” Um ano após já não haviam cadeiras suficientes para acomodar as crianças. Mãe Hilda que sempre alimentou o sonho de seu Terreiro ser um espaço de educação formal, encorajou-se e pediu ao Secretário de Educação da época (Dr. Edvaldo Boaventura) algumas carteiras e equipamentos (mesmo usados) para atender àquela clientela. O seu pedido fora atendido e a Escola começou a funcionar no “barracão” das festas sagradas, com duas professoras,  no mesmo espaço, atendendo aos alunos de níveis diferenciados. Era uma classe “multiseriada”.  

AS INFLUÊNCIAS DA COMUNIDADE DO TERREIRO SOBRE AS CRIANÇAS DA ESCOLA MÃE HILDA

Dentro da comunidade de um Terreiro de Candomblé existe uma hierarquia entre o “povo de Santo”. O titular de uma “Casa de Candomblé” é uma Yalorixá, no caso de uma mulher ou Babalorixá se for um homem. Seguindo essa hierarquia, encontram-se os “ogãs” (homens) e “equedes” (mulheres). Em seguida as “ebams” que são as iniciadas com 7 anos de obrigações feitas e por fim as “iaôs” que são as novas no Santo. A relação entre esse conjunto de filhos e filhas de um Terreiro é de muito respeito, disciplina e obediência. O respeito aos mais velhos, no Santo (independente de idade cronológica), o respeito às crianças, os cumprimentos (a bênção), o respeito à natureza e ao seu semelhante e o respeito a toda e qualquer religião, são uma prática do dia a dia dentro da comunidade de um Terreiro. Os alunos da Escola convivem com essa prática e aprendem a viver nesse espaço naturalmente, e começam a ter novas posturas ao assimilarem esses valores. Temos alunos de várias religiões na Escola, pois o que eles aprendem é respeitar a religião do outro. Todos os alunos sabem que a Escola funciona no espaço sagrado do Terreiro, por isso eles não dizem palavrões, porque não ouvem ninguém dizer. Essa “nova” postura das crianças tem refletido na família destes, segundo o depoimento da maioria das mães.  

3. A INFLUÊNCIA DO ILÊ AIYÊ NA VIDA DAS CRIANÇAS E JOVENS DO CURUZU - LIBERDADE

O Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê é o orgulho do povo da Liberdade, independente da cor da pele, da idade ou da condição sócio-econômica. A região da Liberdade, segundo o último censo tem uma população de 450 mil pessoas negro-mestiça.     O Ilê Aiyê foi fundado por jovens negros do Curuzu, em novembro/1974, com faixa etária de 17 a 19 anos. Esse grupo já existia, como promotor de eventos no bairro, desde os tempos da Escola Parque, do saudoso Anísio Teixeira. Esses jovens sempre buscaram suas formas de entretenimento no bairro, tais como passeios, grupos de samba, rezas de Santo Antonio, carurus de São Cosme, times de futebol, contando com o apoio de Mãe Hilda, sempre zelosa e atenta, já que o seu filho Vovô era sempre o cabeça.

Passados 28 anos de sua fundação, o Ilê, hoje uma Associação Cultural, é muito mais do que um bloco de Carnaval. Dentre as suas proezas, mantém a Escola Mãe Hilda com pagamento de professores, material didático-pedagógico, uniforme das crianças e alimentação. Com o apoio da Secretaria Municipal e outros parceiros,  desenvolve o Projeto de Extensão Pedagógico do Ilê Aiyê (ver cópia anexa), através da Escola de Música, Percussão e Dança Band´Erê, da Escola Profissionalizante, da Escola de Informática, de três Escolas da Rede Municipal de Ensino (capacitando professores e realizando oficinas com os alunos de percussão, música, dança e confecção de adereços e figurinos e trançados nos cabelos, etc.)

O Ilê Aiyê através da música, contou a história da África, pré-colonial, descreveu seus reinos e impérios, cantou a história do povo negro no processo de construção do Brasil e da América do Norte, cantou as revoluções negras que buscaram a igualdade e combateram o preconceito, os seus líderes e heróis; compôs canções que vem elevando a estima da população negra, principalmente da mulher, enfim, vem contribuindo para a redução das desigualdades raciais promovendo educação através da história e da cultura.

A comunidade da Liberdade tem como referência maior o Ilê Aiyê. E para nossa surpresa, as crianças da Escola sabem todas as músicas do Ilê Aiyê.

A partir daí, constatamos que o Ilê era a grande motivação das crianças. Por isso elas buscavam tanto a escola, assim elas estariam mais próximas do alimento farto, que é a cultura do Terreiro,  e a música e o toque que é a cultura do Ilê.       As cores, o ritmo e a música lhes dava alegria, prazer e felicidade.  

A PROPOSTA PEDAGÓGICA

A partir desse referencial, passamos a usar a música do Ilê como instrumento/ferramenta para o nosso trabalho com as crianças. Descobrimos que estávamos no caminho certo. As músicas do Ilê passaram de uma atividade  do simples “cantar para motivar” ou  para “recreação” para ser a “lição” do dia onde se podia interdisciplinarizar à vontade e com facilidades.  

Quem sou eu

Eu vou lhe dizer

Sou do Curuzu

Tenho os pés no chão

Sou Ilê Aiyê

 

Não coloco maquiagem

Pra que eu negue

A minha cor

Tenho orgulho

De ser negro

E nascido em Salvador

Minha raiz é africana

Consagrada pelo axé

Tenho nobreza baiana

Pois nasci no Candomblé

 

Quem sou eu

Eu vou lhe dizer

Sou do Curuzu

Tenho os pés no chão

Sou Ilê Aiyê

 

 

Essa  música, cujo título é “Orgulho de Ser Negro”  foi composta por um rapaz conhecido como “Velho Pinto” em

1996, época em que ele trabalhava como vigilante, num supermercado da cidade.                                          

 

Utilizamos também essa música para os alunos se apresentarem àqueles que visitam a Escola.

Ela é uma das músicas trabalhadas pelos professores, buscando a identidade de cada um e a elevação da estima. Trabalhando as palavras, a sua origem e significados, desmistificando os preconceitos tão presentes na nossa sociedade.    É também explorada a leitura, a compreensão e em seguida, a depender do nível das crianças, são construídas frases, versos e até bibliografias. A depender da turma, os professores buscam as linguagens artísticas para a exploração do texto – desenhos, pequenas dramatizações, jograis, coreografias (danças), painéis coletivos, etc.   

As crianças usufruem leituras e audições de lendas e contos de autores nacionais e estrangeiros. Além destes, contamos também as Lendas dos Orixás, a sua relação com os elementos da natureza, as suas preferências alimentares, etc., levando as crianças a uma melhor compreensão acerca das culturas dos nossos ancestrais. O mesmo ocorre com lendas indígenas. Não fazemos doutrinação, tentamos minimizar os preconceitos, visto que dentro da Escola, temos muitos alunos evangélicos, cristãos e protestantes.

Os alunos da Escola Mãe Hilda além de receberem do Ilê fardamento, materiais e alimentação, contam com a preocupação da Yalorixá e com seu carinho. Eles se sentem seguros, á vontade e em casa. Eles sabem que o ilê os premia também com a Escola de dança, percussão e Música e a garantia de sair no Carnaval desfilando e batendo no peito “O mais belo dos belos, sou eu, sou eu...”.

De relação à Proposta Pedagógica da Escola Mãe Hilda, estamos na fase de sistematização desta, visto que a cada dia temos a ousadia de experimentar a nossa prática pedagógica sem medo, contando sempre com a cumplicidade dos alunos. Temos apenas a certeza de que nós e os alunos temos prazer e alegria de estarmos aqui trocando experiências, aprendendo a aprender: com os mais novos e o mais velhos.

A procura incessante durante o ano por uma vaga na Escola Mãe Hilda nos preocupava muito, pois a Escola não tem autorização para funcionar, apesar dos professores terem a qualificação. No início apenas alfabetizávamos as crianças e quando elas se apropriavam da base alfabética, aconselhávamos aos pais encaminharem à escola pública formal. Em seguida, por solicitação dos pais, fomos levados a manter estas crianças na escola da alfabetização à 2ª Série e atualmente até a 3ª Série do 1º Ciclo do Ensino Fundamental. O barracão do Terreiro não era mais suficiente e tivemos que improvisar mais duas salas, espaços estes que fazem parte da estrutura do Terreiro. Atualmente, abrigamos na Escola Comunitária Mãe Hilda, 75 crianças distribuídas nos dois turnos diurno, recusando diariamente o ingresso de novas crianças.  

CENTRO CULTURAL SENZALA DO BARRO PRETO

Com a nova sede do Ilê Aiyê, velho sonho dos seus fundadores, que ficou pronta no ano de 2004,  No universo dos sete andares da sede do Ilê, no primeiro piso, encontra-se a Escola Mãe Hilda, com duas área de lazer cobertas, 04 salas de aula com mais de 50 m2, refeitório, Sala da Direção, Sala da Coordenação Pedagógica, Sala da Secretaria, Sala dos Professores, sanitários específicos e uma ampla biblioteca com cerca de 100 m2.

O processo de Autorização de Funcionamento da Escola Mãe Hilda já está tramitando na Secretaria de Educação do Estado.

 

OBALUAIÊ (OMOLU)

Na mitologia africana Omolu, tabém chamado de Xapanã, Kajanjá e Kavungo, no ritual de Angola, é Rei do Mundo e Filho do Senhor. Diz-se que como divindade teria sido incorporado ao culto Yorubá.

 Os filhos de Obaluaiê tem o dom de curar, revelando-se grandes médicos.

As cores deste orixá são preto e branco; seu dia é segunda-feira, seus metais são zinco e o estanho. Suas pedras são ônix e o olho-de-gato. Seus perfumes a verbena, o sândalo e o benjoim.

Esse orixá, também como os outros orixás, trabalha com oferendas que são feitas normalmente, quando se deseja pedir melhoras de saúde.

 

SAUDAÇÃO

Quem vê um velho no caminho peça a bênção.

O velho Omulu Atotô Obaluaiê.

Atotô Abaluaiê, Atotô babâ.

Atotô Abaluaiê, Atotô é um orixá.

No candomblé, Omolu representa a terra: tanto o solo como a camada mais profunda. É o médico dos pobres, o orixá das endemias, e entidade da varíola, da peste e das chagas e controla as almas.

No sincretismo religioso é chamado de São Roque e São Lázaro. Com o nome Omolu é sincretizado como São Sebastião e Santo Isidoro, protetor dos animais. O seu animal abençoado é o cachorro.

Omulu dança no candomblé coberto com fila (capuz) de palha-da-costa, levando nas mãos o xaxará feito de palha-da-costa, búzios e contas.

O xaxará representa a vassoura com a qual varre todas as doenças.

Texto trabalhado com os alunos da  3ª Série durante as comemorações para Obaluaiê,  no mês de agosto/2002  

HOMENAGEM ÀS MÃES PRETAS DO BRASIL

Mãe Hilda

Mãe Preta do Brasil

Sabe acalentar

Sabe aconselhar

Sabe qual a comida dos orixás

 

Cuida de tudo com carinho

Dos filhos que amamentou

E dos que não amamentaram também

 

Cuida da fé

Cuida da religião

Cuida do negro

Para que sejam

Um bom cidadão

 

Que as mães pretas

Sejam parecidas com Mãe Hilda

Nos acalente

Nos aconselhe

Para sermos

Negros felizes no Brasil  

 

Produção coletiva dos alunos da 2ª Série, durante as comemorações do Dia da Mãe Preta do Ilê Aiyê.

28/09/2001


HOMENAGEM A VOVÔ

Vovô negro na pele

Vovô negro na cor

Vovô grande guerreiro

Que Zumbi nos deixou.

 

Quando subo o Curuzu

Eu fico contente

De ver o negro Vovô

Se preocupando com a gente

 

Tenho orgulho de ser negro

Negro eu sou

Sou da Escola Mãe Hilda

Que Vovô consagrou

Poesia coletiva dos alunos da 2ª Série - Escola Mãe Hilda

14/06/2001

PARÓDIA

Veja os cabelos dela

*Paródia da música de Tiririca

Veja, veja o cabelo dela

Bonita igual a ela

Quando ela passa

Me chama a atenção

Essa negra é bonita

E me deixa doidão.

 

Eu já mandei ela me abraçar

mas essa negra é orgulhosa

e não quis me namorar.

Essa negra é cheirosa,

Bonita e formosa

Igual a uma flor no mar.

*Produção coletiva dos alunos da 1ª Série – Prof. Eliete Matos  

Veja os cabelos dela

(Tiririca)

Veja, veja os 

cabelos dela

Parece bombril de arear panela

Quando ela passa,

Me chama a atenção

Mas os seus cabelos

Não têm jeito não.

Eu já mandei ela se lavar

Mas ela teimou

E não quis me escutar

Essa negra fede, fede de lascar

Bicha fedorenta

Fede mais que gambá.