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HISTÓRICO
DA ESCOLA MÃE HILDA
O
Ilê Axé Jitolu é um Terreiro de Candomblé de nação Gêge-nagô, comandada
por Mãe Hilda dos Santos, que reside no Curuzu - Liberdade, desde o ano de
1938. Mãe Hilda acredita e afirma que um Terreiro de Candomblé é também uma
Escola, onde os iniciados aprendem
a conviver na irmandade e solidariedade, aprendendo e vivenciando uma religião
que não tem o registro escrito e sim a oralidade e o aprender fazendo. O
Terreiro não faz pregações itinerantes ou sermões em templos, mas não pode
fechar a porta para àqueles que nela chegam. Foi nesse espaço, ou melhor,
neste templo sagrado que nasceu o Ilê Aiyê
que, apesar de profano (por ser um bloco de Carnaval) herdou os
fundamentos e princípios da religião do candomblé. Essa herança fez do Ilê
uma entidade que tem a compreensão da dimensão da Religião do Candomblé e
absorveu dela valores e princípios básicos à convivência social, bem como o
respeito aos mais velhos e o aproveitamento da simbologia para as suas canções,
toques, adereços e figurinos sem ferir os fundamentos religiosos. Ao longo dos
seus 28 anos o Ilê Aiyê tem difundido e preservado a cultura africana e
afro-baiana, ao tempo em que tem defendido o respeito às religiões.
E
é sobre esse lastro que surge a Escola Mãe Hilda.
Tudo
começou (1988/1989) com pouco mais de cinco crianças que tinham dificuldades
de aprendizagem e a mães buscaram a filha de Mãe Hilda para dar uma
“banca”. Depois surgiram outras crianças evadidas da rede pública com históricos
de bi-repetência e indisciplina, que não queriam mais ficar na Escola. E a notícia correu rápida que as “filhas de Mãe Hilda
estavam ensinando e as crianças estavam aprendendo e tinham até mudado o
comportamento.” Um ano após já não haviam cadeiras suficientes para
acomodar as crianças. Mãe Hilda que sempre alimentou o sonho de seu Terreiro
ser um espaço de educação formal, encorajou-se e pediu ao Secretário de
Educação da época (Dr. Edvaldo Boaventura) algumas carteiras e equipamentos
(mesmo usados) para atender àquela clientela. O seu pedido fora atendido e a
Escola começou a funcionar no “barracão” das festas sagradas, com duas
professoras, no mesmo espaço,
atendendo aos alunos de níveis diferenciados. Era uma classe “multiseriada”.
AS
INFLUÊNCIAS DA COMUNIDADE DO TERREIRO SOBRE AS CRIANÇAS DA ESCOLA MÃE HILDA
Dentro
da comunidade de um Terreiro de Candomblé existe uma hierarquia entre o “povo
de Santo”. O titular de uma “Casa de Candomblé” é uma Yalorixá, no caso
de uma mulher ou Babalorixá se for um homem. Seguindo essa hierarquia,
encontram-se os “ogãs” (homens) e “equedes” (mulheres). Em seguida as
“ebams” que são as iniciadas com 7 anos de obrigações feitas e por fim as
“iaôs” que são as novas no Santo. A relação entre esse conjunto de
filhos e filhas de um Terreiro é de muito respeito, disciplina e obediência. O
respeito aos mais velhos, no Santo (independente de idade cronológica), o
respeito às crianças, os cumprimentos (a bênção), o respeito à natureza e
ao seu semelhante e o respeito a toda e qualquer religião, são uma prática do
dia a dia dentro da comunidade de um Terreiro. Os alunos da Escola convivem com
essa prática e aprendem a viver nesse espaço naturalmente, e começam a ter
novas posturas ao assimilarem esses valores. Temos alunos de várias religiões
na Escola, pois o que eles aprendem é respeitar a religião do outro. Todos os
alunos sabem que a Escola funciona no espaço sagrado do Terreiro, por isso eles
não dizem palavrões, porque não ouvem ninguém dizer. Essa “nova” postura
das crianças tem refletido na família destes, segundo o depoimento da maioria
das mães.
3.
A
INFLUÊNCIA DO ILÊ AIYÊ NA VIDA DAS CRIANÇAS E JOVENS DO CURUZU - LIBERDADE
O
Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê é o orgulho do povo da Liberdade, independente da
cor da pele, da idade ou da condição sócio-econômica. A região da
Liberdade, segundo o último censo tem uma população de 450 mil pessoas
negro-mestiça. O
Ilê Aiyê foi fundado por jovens negros do Curuzu, em novembro/1974, com faixa
etária de 17 a 19 anos. Esse grupo já existia, como promotor de eventos no
bairro, desde os tempos da Escola Parque, do saudoso Anísio Teixeira. Esses
jovens sempre buscaram suas formas de entretenimento no bairro, tais como
passeios, grupos de samba, rezas de Santo Antonio, carurus de São Cosme, times
de futebol, contando com o apoio de Mãe Hilda, sempre zelosa e atenta, já que
o seu filho Vovô era sempre o cabeça.
Passados
28 anos de sua fundação, o Ilê, hoje uma Associação Cultural, é muito mais
do que um bloco de Carnaval. Dentre as suas proezas, mantém a Escola Mãe Hilda
com pagamento de professores, material didático-pedagógico, uniforme das crianças
e alimentação. Com o apoio da Secretaria Municipal e outros parceiros,
desenvolve o Projeto de Extensão Pedagógico do Ilê Aiyê (ver cópia
anexa), através da Escola de Música, Percussão e Dança Band´Erê, da Escola
Profissionalizante, da Escola de Informática, de três Escolas da Rede
Municipal de Ensino (capacitando professores e realizando oficinas com os alunos
de percussão, música, dança e confecção de adereços e figurinos e trançados
nos cabelos, etc.)
O Ilê Aiyê através da música, contou a história da África, pré-colonial, descreveu seus reinos e impérios, cantou a história do povo negro no processo de construção do Brasil e da América do Norte, cantou as revoluções negras que buscaram a igualdade e combateram o preconceito, os seus líderes e heróis; compôs canções que vem elevando a estima da população negra, principalmente da mulher, enfim, vem contribuindo para a redução das desigualdades raciais promovendo educação através da história e da cultura.
A
comunidade da Liberdade tem como referência maior o Ilê Aiyê. E para nossa
surpresa, as crianças da Escola sabem todas as músicas do Ilê Aiyê.
A
partir daí, constatamos que o Ilê era a grande motivação das crianças. Por
isso elas buscavam tanto a escola, assim elas estariam mais próximas do alimento
farto, que é a cultura do Terreiro, e
a música e o toque que é a cultura do Ilê.
As cores, o ritmo e a música lhes dava alegria, prazer e felicidade.
A
PROPOSTA PEDAGÓGICA
A
partir desse referencial, passamos a usar a música do Ilê como instrumento/ferramenta
para o nosso trabalho com as crianças. Descobrimos que estávamos no caminho
certo. As músicas do Ilê passaram de uma atividade do simples “cantar para motivar” ou
para “recreação” para ser a “lição” do dia onde se podia
interdisciplinarizar à vontade e com facilidades.
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Quem sou eu Eu vou lhe dizer Sou do Curuzu Tenho os pés no chão Sou Ilê Aiyê Não coloco
maquiagem Pra que eu negue A minha cor Tenho orgulho De
ser negro
E nascido em Salvador Minha raiz é africana Consagrada pelo axé Tenho nobreza baiana Pois nasci no Candomblé Quem sou eu Eu vou lhe dizer Sou do Curuzu Tenho os pés no chão Sou Ilê Aiyê
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Essa música, cujo título é “Orgulho de Ser Negro” foi composta por um rapaz conhecido como “Velho Pinto” em
1996, época
em que ele trabalhava como vigilante, num supermercado da cidade.
Utilizamos
também essa música para os alunos se apresentarem àqueles que visitam a
Escola.
Ela
é uma das músicas trabalhadas pelos professores, buscando a identidade de cada
um e a elevação da estima. Trabalhando as palavras, a sua origem e
significados, desmistificando os preconceitos tão presentes na nossa sociedade. É também explorada a leitura, a compreensão e
em seguida, a depender do nível das crianças, são construídas frases, versos
e até bibliografias. A depender da turma, os professores buscam as linguagens
artísticas para a exploração do texto – desenhos, pequenas dramatizações,
jograis, coreografias (danças), painéis coletivos, etc.
As
crianças usufruem leituras e audições de lendas e contos de autores nacionais
e estrangeiros. Além destes, contamos também as Lendas dos Orixás, a sua relação
com os elementos da natureza, as suas preferências alimentares, etc., levando
as crianças a uma melhor compreensão acerca das culturas dos nossos
ancestrais. O mesmo ocorre com lendas indígenas. Não fazemos doutrinação,
tentamos minimizar os preconceitos, visto que dentro da Escola, temos muitos
alunos evangélicos, cristãos e protestantes.
Os
alunos da Escola Mãe Hilda além de receberem do Ilê fardamento, materiais e
alimentação, contam com a preocupação da Yalorixá e com seu carinho. Eles
se sentem seguros, á vontade e em casa. Eles sabem que o ilê os premia também
com a Escola de dança, percussão e Música e a garantia de sair no Carnaval
desfilando e batendo no peito “O mais belo dos belos, sou eu, sou eu...”.
De
relação à Proposta Pedagógica da Escola Mãe Hilda, estamos na fase de
sistematização desta, visto que a cada dia temos a ousadia de experimentar a
nossa prática pedagógica sem medo, contando sempre com a cumplicidade dos
alunos. Temos apenas a certeza de que nós e os alunos temos prazer e alegria de
estarmos aqui trocando experiências, aprendendo a aprender: com os mais novos e
o mais velhos.
A
procura incessante durante o ano por uma vaga na Escola Mãe Hilda nos
preocupava muito, pois a Escola não tem autorização para funcionar, apesar
dos professores terem a qualificação. No início apenas alfabetizávamos as
crianças e quando elas se apropriavam da base alfabética, aconselhávamos aos
pais encaminharem à escola pública formal. Em seguida, por solicitação dos
pais, fomos levados a manter estas crianças na escola da alfabetização à 2ª
Série e atualmente até a 3ª Série do 1º Ciclo do Ensino Fundamental. O
barracão do Terreiro não era mais suficiente e tivemos que improvisar mais
duas salas, espaços estes que fazem parte da estrutura do Terreiro. Atualmente,
abrigamos na Escola Comunitária Mãe Hilda, 75 crianças distribuídas nos dois
turnos diurno, recusando diariamente o ingresso de novas crianças.
CENTRO CULTURAL SENZALA DO BARRO PRETO
Com
a nova sede do Ilê Aiyê, velho sonho dos seus fundadores, que ficou pronta no
ano de 2004, No universo dos sete andares da sede do Ilê,
no primeiro piso, encontra-se a Escola Mãe Hilda, com duas área de lazer
cobertas, 04 salas de aula com mais de 50 m2, refeitório, Sala da
Direção, Sala da Coordenação Pedagógica, Sala da Secretaria, Sala dos
Professores, sanitários específicos e uma ampla biblioteca com cerca de 100 m2.
O
processo de Autorização de Funcionamento da Escola Mãe Hilda já está
tramitando na Secretaria de Educação do Estado.
OBALUAIÊ
(OMOLU)
Na
mitologia africana Omolu, tabém chamado de Xapanã, Kajanjá e Kavungo, no
ritual de Angola, é Rei do Mundo e Filho do Senhor. Diz-se que como divindade
teria sido incorporado ao culto Yorubá.
Texto
trabalhado com os alunos da 3ª Série
durante as comemorações para Obaluaiê, no
mês de agosto/2002
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HOMENAGEM
ÀS MÃES PRETAS DO BRASIL Mãe
Hilda Mãe
Preta do Brasil Sabe
acalentar Sabe
aconselhar Sabe
qual a comida dos orixás Cuida
de tudo com carinho Dos
filhos que amamentou E
dos que não amamentaram também Cuida
da fé Cuida
da religião Cuida
do negro Para
que sejam Um
bom cidadão Que
as mães pretas Sejam
parecidas com Mãe Hilda Nos
acalente Nos
aconselhe Para
sermos Negros
felizes no Brasil
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Produção
coletiva dos alunos da 2ª Série, durante as comemorações do
Dia da Mãe Preta do Ilê Aiyê.
28/09/2001
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HOMENAGEM A VOVÔ
Vovô
negro na pele
Vovô
negro na cor
Vovô
grande guerreiro
Que
Zumbi nos deixou.
Quando
subo o Curuzu
Eu
fico contente
De
ver o negro Vovô
Se
preocupando com a gente
Tenho
orgulho de ser negro
Negro
eu sou
Sou
da Escola Mãe Hilda
Que Vovô consagrou
Poesia
coletiva dos alunos da 2ª Série - Escola Mãe Hilda
14/06/2001
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PARÓDIA
Veja
os cabelos dela
*Paródia
da música de Tiririca
Veja,
veja o cabelo dela
Bonita
igual a ela
Quando
ela passa
Me
chama a atenção
Essa
negra é bonita
E
me deixa doidão.
Eu
já mandei ela me abraçar
mas
essa negra é orgulhosa
e
não quis me namorar.
Essa
negra é cheirosa,
Bonita
e formosa
Igual
a uma flor no mar.
*Produção
coletiva dos alunos da 1ª Série – Prof. Eliete Matos
Veja
os cabelos dela
(Tiririca)
Veja, veja os
cabelos dela
Parece
bombril de arear panela
Quando
ela passa,
Me
chama a atenção
Mas
os seus cabelos
Não
têm jeito não.
Eu
já mandei ela se lavar
Mas
ela teimou
E
não quis me escutar
Essa
negra fede, fede de lascar
Bicha
fedorenta
Fede mais que gambá.